Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

cartas de amor

Modernizam-se os tempos...Modificam-se hábitos...Perdem-se tradições...

Em tempos, que começam a parecer tempos pré-históricos, ainda havia o hábito de escrever cartas de amor. Hoje, em grande parte devido ao aparecimento de outros meios de comunicação, essa tradição deu lugar a novas maneiras de transmitir palavras de amor. SMS e e-mails são as novas cartas de amor. 

 ''Cartas de amor, quem as não tem ?'', dizia a música. Há muita gente que ainda pode responder que as tem, mas daqui por 30 anos, talvez nem tanto, duvido que hajam muitos a poderem gabar-se de algum dia terem escrito ou recebido uma carta de amor.

Uma carta de amor é mais do que o conjunto formado pela soma de várias palavras. Uma carta de amor , para quem consiga ver muito mais que as letras manuscritas num pedaço de papel, tem em si , as esperanças, medos, desejos,.. da pessoa que a escreveu.

Uma carta de amor é um pouco de quem a escreve, que ao dar um pouco de si, espera que haja um destinatário que a receba de coração aberto.

O Cupido, anjinho que flecha casais, fazendo com que se apaixonem, chega na pessoa do carteiro que transporta a carta de amor. Não tem asas, não é anjo e nem sequer tem flechas, mas tem u contributo muito importante para que hajam amores acalentados por palavras escritas nas cartas.

É preciso muito talento para meter em palavras, num papel, todas as sensações e sentimentos que nos vão no coração. Tudo aquilo que é fácil de sentir, parece complicar-se na hora de se explicar, numa lógica quase matemática, que 1+1= Amo-te.

Há quem se valha da sua grande capacidade de saber como chegar ao coração das outras pessoas, colmatando algum menor talento em escrever.

As cartas de amor,por muitos anos que se guardem nas gavetas...por muito cheiro a bafio que tenham... por muitos acordos ortográficos que tenha sofrido a língua em que foram escritas,  têm sempre uma mensagem actual, mesmo passados muitos anos.

São cartas...São ridiculas...Fernando Pessoa sabia o que escrevia , quando escreveu o seu poema ....

 

''Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)''


(Álvaro de Campos, 21/10/1935)

 

 

Ficam perpetuados no tempo, em cartas de amor,  sentimentos que não sucumbem e  não tiveram um fim. Ali, naquele papel, as palavras mantêm a mesma força e intensidade, ainda que no coração de quem as escreveu, aqueles sentimentos outrora descritos, já tenham desaparecido.

E quando o Amor sobrevive tanto ou mais tempo como as cartas, como deve ser engraçado que filhos, netos e bisnetos possam ler as cartas de amor que ajudaram a alicerçar a união dos seus pais, avós ou bisavós.

 O mais provável é que , como dizia Pessoa, lhes pareçam cartas ridiculas. Ao ler cartas a falar de um amor que não vivemos, é normal que pareçam ridiculas. Até as que são escritas por nós parecem ridiculas e sem conteúdo suficiente, em qualidade e quantidade, para dizer a alguém, alguém que nos é muito especial, o quanto se ama essa pessoa.

Já tive a chance de poder ter essa sensação de ridiculo. Coisas de adolescente sem telemóvel, mas com muita vontade de estabelecer ''ligação'' a alguém.

Será que essas cartas ainda hoje existem? Provavelmente já não, assim como o sentimento também já não existe.

Há tantas coisas que desaparecem ou que se perdem , que até nem é de estranhar muito que se assista ao desaparecer desse romântico hábito de se escreverem cartas de amor.

 

 

 

 

 

 

segredo revelado: Sem pretensões de fazer concorrência ao Fernando Pessoa, aqui fica um poema meu, sobre cartas de amor.

 

Mas que doce tormento,
Folhear, com mãos trémulas e coração palpitante,
Cartas que outrora falaram de um nobre sentimento.
Hoje, foi-se o sentimento,
Ficaram as cartas escritas à mão...
Mas que doce tormento...
Escrever...Ler...Mandar...Receber..
Cartas, simples cartas, que nos tocam no coração!

...

E se o amor acaba,

Dá vontade de rasgar as cartas,

Assim como se rasga o coração no peito.

Aquelas letras que, de tantas vezes lidas, parecem gastas,

Já não simbolizam o amor perfeito.

...

Mas se o amor cresce e assume proporções de gigante eterno...

As cartas de amor são um diário...São achas lançadas para a fogueira da paixão...

São papéis que não ardem nem no fogo do Inferno,

São papéis onde estão impressos pequenos pedaços de um coração.

...

São cartas de amor...

 

 

publicado por segredo_revelado às 22:31
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